Covenanter

Pela Coroa de Cristo e pelo Pacto

Teologia, história, filosofia, resenhas literárias e ficção.

2 de outubro de 2026 · Capítulo 1

Capítulo 1: o começo.

Era um dia quente de outubro aquele no qual nossa história tem início. Os relógios da pequena cidade de Calma Nervosa de Goiás não haviam marcado nem 7:00 da manhã, e o sol já estava tão quente como se já fosse meio-dia. O calor que emanava do asfalto já era insuportável; ficar em qualquer lugar apertado com alguma quantidade de pessoas já era impossível, e praticamente todas as casas da pequena cidade já estavam com as portas e janelas abertas, apesar de o dia mal ter começado.

O calor repentino havia deixado as pessoas letárgicas. Se, por um lado, era impossível ficar por mais tempo na cama, por outro, também era impossível fazer qualquer atividade que demandasse algum grau de energia. Os que eram obrigados a sair de casa não faziam sem uma elevada dose de desânimo, e os que não precisavam sair respiravam aliviados, enquanto trocavam nessa manhã tão quente o tradicional café por alguma bebida gelada e mais condizente com o clima.

Só um grupo de pessoas no interior de uma dessas casas parecia não compartilhar da prostração geral causada pelo calor excepcional. Nessa casa havia movimento, e até certo grau de euforia. O grupo de pessoas era composto por uma mulher na faixa dos seus 60 anos, um homem de idade semelhante, e um filho dos dois que na identidade tinha 35, na aparência tinha 40, e no modo de pensar e agir tinha 14.

Era um grupo estranho o composto por essas pessoas. Para começar, era estritamente proibido usar o termo família para se referir a eles. Família, no dizer da companheira Simone Friedan, pois esse era o nome da mulher, família, é uma construção opressora, que visa acorrentar principalmente as mulheres às barbas de um sistema patriarcal falido e debilitante. Usar o termo mãe ou esposa também era uma transgressão capital. O filho só poderia se dirigir a ela como "Simone" e o homem só poderia se dirigir a ela como companheira ou parceira.

Outra coisa que também destacava esse grupo de pessoas e, principalmente, a companheira Simone eram os títulos acadêmicos. Ela gostava de se gabar de que era PhD, PcD, PT, PCdoB e mais outras dezenas de siglas que seria preciso outra formação acadêmica por si só para poder aprendê-las todas.

A companheira Simone Friedan nem sempre fora conhecida como Simone Friedan. O nome com o qual ela fora registrada no momento de seu nascimento havia sido Maria Jovelinda da Silva. A pequena Maria Jovelinda, ou apenas Marilinda, como carinhosamente fora apelidada pelo pai, cresceu em um lar que, se não era opulento, pelo menos não era desprovido de uma boa dose de conforto.

Desde criança, Maria Jovelinda se mostrou um flagelo para a paciência de quaisquer pais. Ao contrário do temperamento mais pacífico e delicado que as meninas costumam ter, ela demonstrou desde cedo um temperamento belicoso e expansivo. Tinha um jeito de andar todo masculino, pisando firme no chão, e era um verdadeiro carrasco para as bonecas.

Os dias mais torturantes para a mãe eram aqueles nos quais ela tentava ensinar a pequena Maria alguma atividade doméstica, atividades das quais resultava o mais retumbante fracasso. Quando a mãe e o pai, preocupados, se reuniam para conversar sobre essa situação, a conversa sempre terminava sem conclusão e com um dos dois dizendo, com um suspiro cansado: "Mas deixe estar, com o tempo a Marilinda melhora".

Mas a Marilinda não melhorou. A pequena Maria Jovelinda deu lugar à jovem Maria Jovelinda, e o que fora um teste para a paciência se tornou realmente uma tortura. Aos 18 anos, a jovem Maria Jovelinda, que de linda mesmo só tinha parte do nome, dava os primeiros passos em sua extensa carreira universitária.

Lá dentro ela conheceu Karl Marx, aprendeu a partir do Manifesto Comunista que o casamento do pai e da mãe era uma prostituição legal, e que o pai, que era dono de uma pequena rede de mercados, era um capitalista opressor, que lucrava com a exploração do proletariado.

Maria não pôde se conter ao descobrir tamanhas injustiças, e, como ela mesma declarou para os seus colegas de universidade no outro dia, disse tudo isso mesmo na cara do pai quando foi entregar a ele o boleto da mensalidade do curso daquele mês.

Certo dia, uma das universitárias apresentou a Maria uma tese que ela estava escrevendo, baseada nos escritos de Simone de Beauvoir e Betty Friedan sobre o direito da mulher ao aborto. Esse foi o ponto de virada na vida da jovem Maria Jovelinda. Como ela mesma declarou depois, "Simone e Betty são minhas mães, eu nasci de novo ao contemplar as bases delas para o aborto". Então, aos 21 anos, pouco antes de terminar o seu curso universitário, Maria Jovelinda da Silva se tornava Simone Friedan da Silva.

Nos últimos meses de curso da jovem Simone, aconteceu outra coisa que viria a exercer também forte influência sobre ela. Através de um dos colegas do seu curso, Simone foi apresentada às investigações de Sherlock Holmes, de Arthur Conan Doyle, e aos casos de Auguste Dupin, de Edgar Allan Poe. Simone ficou impressionada com o que leu. E, mesmo que ela considerasse tudo aquilo como a mais clara defesa do "machismo estrutural", se tornou para ela uma obsessão ter uma filha e transformá-la na mais formidável investigadora e combatente do capitalismo e do patriarcado.

Então, após apresentar durante 4 horas o seu TCC, baseado na tese de que uma mulher precisa de um homem tanto quanto um peixe precisa de uma bicicleta, e ter recebido o seu diploma com os mais efusivos louvores, a jovem Simone foi até o seu colega que havia lhe apresentado os livros de investigação e, após tê-lo convencido a mudar o seu nome de Gumercindo Ribeiro para Jean Sartre Ribeiro, ela o pediu em casamento.

Pois, afinal, Simone Friedan da Silva precisava ter uma filha que faria a sociedade patriarcal tremer.

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