Covenanter

Pela Coroa de Cristo e pelo Pacto

Teologia, história, filosofia, resenhas literárias e ficção.

5 de outubro de 2026

Como fazer da religião o seu negócio?

Quais têm sido suas prioridades?

Os puritanos costumavam falar muito de "fazer da religião o seu negócio". Com isso, eles não estavam querendo criar nenhuma dessas tolices modernas de teologia da prosperidade, nem nada do tipo. Porém, o que queriam dizer é que a religião deve ser a nossa prioridade.

Ora, basta olhar para um homem natural com o seu comércio para entendermos do que eles estavam falando. Essas pessoas são diligentes em fazer tudo o que faça com que seu comércio prospere: os pensamentos delas estão continuamente nisso; se elas dormem, é para fazer isso melhor no outro dia; se elas acordam, é para trabalhar nisso. Seu dia começa e termina voltado para o seu comércio.

Assim também deve ser o cristão: agradar ao seu Deus deve ser a sua prioridade.

Mas no que isso implica?

Nesses nossos tempos degenerados, em que os homens preferem a confusão de Babel à ordem do Deus de paz, prescrever qualquer tipo de regra para muitos chega a ser um crime. Preferem abraçar as teorias relativistas dos ímpios e dizer que cada um deve adorar a Deus daquela forma que se encaixa melhor na sua realidade, e coisas desse tipo.

No entanto, isso deve ser muito diferente para aqueles que, de fato, buscam ter as Escrituras como regra de fé e prática.

Todos aqueles que querem cumprir a ordem de Deus de escutar o Filho (Mateus 17:5) e que querem seguir a ordem de Deus, através do profeta, de que devemos buscar ouvir o que diz a lei e o testemunho (Isaías 8:20), verão que o que as Escrituras apresentam é bem diferente disso.

Por isso, é minha intenção dar algumas breves instruções — de acordo com o que me permite o espaço — sobre como começar a regular os deveres de todo cristão.

1. A religião deve ter parte adequada do nosso tempo.

Muitos dizem: "Eu não tenho tempo".

O homem diz: "Eu trabalho o dia inteiro fora, por isso não tenho tempo de orar, nem ler a Bíblia, nem de fazer o culto doméstico com minha família".

A mulher diz: "Eu tenho muitas coisas em casa para fazer, tenho muitas crianças, não tenho tempo de orar nem ler as Escrituras".

A criança diz: "Meus pais me pedem para fazer muita coisa, tenho que estudar as coisas da minha educação civil e ainda tenho que brincar, não tenho tempo para orar nem ler as Escrituras".

Mas o que isso mostra? Mostra que Deus e as Suas coisas não têm sido a nossa prioridade.

Se nós devemos fazer tudo para a glória de Deus, como diz o apóstolo Paulo em 1 Coríntios 10:31; se nós somos peregrinos e estrangeiros nesta terra, como diz o apóstolo Pedro; se devemos considerar Deus como a nossa única porção, como diz o salmista no Salmo 73; se buscamos ser cidadãos do céu, como diz Paulo aos filipenses, como é que nos dedicaremos mais às coisas daqui do que às coisas celestiais?

Será que estamos querendo mesmo essa pátria celestial? Será que não estamos nos comportando mais como os inimigos da cruz de Cristo, cujo deus é o ventre, do que como aqueles que têm a sua cidadania no céu (Filipenses 3:19-20)?

Mas vamos ver o erro disso mais claramente, repreendido pelo próprio Senhor Jesus Cristo. Basta lermos Lucas 10:38-42, e veremos que o Senhor não aprova tal atitude.

Ora, o Senhor havia chegado àquela casa e, logo ao chegar, já começou a ensinar, como era o Seu costume. Maria sentou-se para ouvi-Lo, enquanto Marta dedicou-se aos deveres domésticos.

Quando Marta pergunta a Cristo se Ele não diria nada à sua irmã por deixá-la fazer todos os deveres domésticos sozinha, o que Cristo diz? Que Marta estava ocupada com muitas coisas, mas Maria escolheu a boa porção.

Será que Cristo estava condenando o trabalho? Será que Ele estava condenando os deveres domésticos das mulheres? Obviamente, não; Ele estava condenando a falta de prioridade de Marta.

Se Cristo chegou e começou a ensinar, a obrigação dela era ter se assentado junto com sua irmã para ouvi-Lo e, depois de terminadas as instruções, ambas cuidarem dos afazeres domésticos. Mas houve essa falha na piedosa mulher: ela preferiu cuidar dos afazeres domésticos e, talvez, ouvir a Cristo quando tivesse tempo.

Dizer que "não tem tempo" não é desculpa. Não é a religião que deve esperar que tenhamos tempo; somos nós que devemos regular o nosso tempo para que a religião não fique negligenciada.

Eu não tenho que pensar: "Eu irei fazer isso e aquilo e, quando sobrar tempo, eu irei ler as Escrituras e orar". O que eu tenho que pensar é: "Como eu vou organizar meu tempo para fazer isso e aquilo, sem que eu fique sem tempo para ler as Escrituras e orar?"

Nosso tempo deve ser dividido e regulado de tal forma que os deveres cristãos tenham parte adequada, prioritária e inegociável dele.

2. A religião não deve ter somente parte adequada do nosso tempo, mas deve ter também as primícias do nosso tempo.

Não basta que dediquemos a Deus parte do nosso tempo; devemos dedicar a Ele também o primeiro lugar no nosso tempo. Não devemos apenas dedicar parte do nosso dia a Deus, ou apenas terminar nosso dia com Ele, mas devemos começar o nosso dia com Ele.

E pensem consigo mesmos se isso não é muito adequado. Nós damos o melhor àquilo que nós consideramos o melhor. E quem é o melhor Ser, o mais perfeito, Aquele que tem domínio soberano sobre nós? Será que Ele não merece as primícias do nosso tempo?

É muito adequado que Ele tenha os nossos primeiros momentos logo pela manhã, pois, em primeiro lugar, Aquele que é o melhor merece o melhor. Ao acordarmos, é o momento em que estamos mais revigorados do sono da noite e temos a mente mais bem disposta; então, a quem deveria ser dedicada tal primícia de tempo?

Segundo: Ele não nos protegeu durante toda a noite? Não é justo que, ao acordarmos bem, com nossa casa e família em segurança, busquemos agradecê-Lo?

Terceiro: não estamos acordando para um longo dia, em que estamos expostos aos ataques do diabo, às tentações da carne e do mundo? Então, não deveríamos pedir a Ele o Seu auxílio e proteção, e buscar nas Santas Escrituras como nos armarmos contra tais ciladas?

Quarto: isso mostra onde estão nossas prioridades. Se você já acorda e vai cuidar do seu ventre, vai cuidar dos afazeres domésticos, vai trabalhar ou vai fazer outras coisas, quais são os pensamentos que estão dominando a sua mente? Não são essas coisas terrenas?

Quinto: as Escrituras nos mostram que isso é muito adequado. O nosso bendito Salvador, logo pela manhã, já estava orando (Marcos 1:35). Esta também era a prática do piedoso Davi (Salmo 63:1).

Este salmo nos mostra uma coisa interessante: o salmista diz que cedo buscaria a Deus, pois a sua alma tinha sede dEle. Este salmo está localizado no tempo em que Davi estava sendo perseguido por Saul.

Ele podia dizer: "Eu não tenho tempo, eu estou tendo que fugir a todo momento", mas o que ele faz é bem diferente. Mesmo em um deserto, mesmo com todas as privações, ele se dispõe a buscar a Deus logo pela manhã.

E a expressão que ele usa é digna de atenção: ele diz que a alma dele tem sede de Deus. Como alguns bem destacam, ele diz que a alma tem sede, e não fome. Pois é bem sabido que a sede incomoda e mata muito mais rápido do que a falta de comida.

A pergunta que fica para nós, então, é: será que nossas almas têm tido sede de Deus? Basta olharmos para o nosso corpo natural: quando temos sede — muita sede —, deixamos para tomar água apenas quando tivermos tempo?

A mesma coisa é com as nossas almas: se deixamos para falar com Deus em oração e ouvi-Lo falar conosco através da leitura das Escrituras só quando temos tempo, isso nos mostra que nossas almas não estão tendo sede dEle.

Meus irmãos, que tal impiedade seja afastada de nós: a de não termos sede dAquele que é a fonte da água da vida (João 4:14). Que possamos servir a Deus com mais seriedade, temor e fidelidade.

Ele não só requer parte do nosso tempo, como também requer as primícias do nosso tempo — e não só requer, mas é perfeitamente digno delas.

Espero que essas breves instruções sejam úteis para que vocês aprendam a fazer da religião o seu negócio. Que o Senhor nos ajude nisso. Amém.

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