Covenanter

Pela Coroa de Cristo e pelo Pacto

Teologia, história, filosofia, resenhas literárias e ficção.

5 de outubro de 2026

O monstro feito de canos

Eu precisava correr. Eu sabia que ele já estava ali, sabia que em breve ele iria me alcançar! Tentei acelerar, porém meus pés pareciam colados ao chão. Eu já podia ouvir os seus passos pesados, já podia ouvir sua voz raivosa.

Tentei acelerar novamente, contudo, por maior que fosse o meu esforço, a dificuldade em me mover só aumentava. Eu sabia que era impossível fugir dele; ainda assim, não podia ficar ali. Seus passos já se faziam ouvir cada vez mais próximos, e os meus só ficavam mais lentos e fracos a cada tentativa.

E então ele chegou. Foi subindo a rampa de ferro na qual eu estava bem devagarzinho, pois ele sabia que não precisava ter pressa; ele sabia da lentidão dos meus passos.

Ele era alto, maior que o mundo e todo feito de canos. Canos da grossura de pernas, canos da grossura de homens, canos da grossura de carvalhos. Ele era um monstro jamais visto. Ele era o monstro. O monstro feito de canos.

Ao ver aquele monstro se aproximar, fiz o que qualquer pessoa sensata faria: parti para cima dele! Eu o ataquei com todas as armas de uma criança de 7 anos; foram vários chutes e socos mal-sucedidos. Porém, minhas principais armas eram meus gritos agudos e minhas ofensas destinadas somente aos piores meninos:

— Toma essa, seu feioso, piolhento, saco de banha! Sua mãe te achou no lixo!

E, como já era de se esperar, tomei a maior surra. O monstro levantou aquele braço que mais parecia uma árvore e começou a me bater sem dó! Então, ele me pressionou com um de seus pés imensos. O peso era insuportável.

Tentei abrir a boca para gritar, no entanto nenhum som saiu dela. Eu não conseguia me mexer; por mais esforço que eu fizesse para esboçar algum movimento ou soltar algum som, o meu corpo não obedecia. Não conseguia respirar.

Tentei me levantar, em vão; não dava, o monstro estava me matando. Comecei a sentir um calor sufocante, e respirar tornava-se gradualmente penoso. Quando pensei que iria morrer, então eu acordei.

Puxei a maior quantidade de ar que consegui e comecei a bater os pés e as mãos sem parar para tirar aquilo que estava me sufocando. Foi quando percebi que o calor sufocante era apenas o meu cobertor, juntamente com o calor natural do meio da manhã, e o monstro de canos não passava de um sonho!

Mesmo assim, joguei a coberta para lá; não pretendia continuar dormindo com ela. Na verdade, se era nos sonhos que o monstro feito de canos estava, eu não voltaria a dormir. Problema resolvido. Já ajeitada esta questão pendente, parti para viver meu dia de criança.

— Não vai dormir não, menino? — perguntou minha avó.

— Vou nada, vó. Vou ver TV aqui.

— Que ver televisão o quê! Você vai é dormir! — gritou minha mãe lá do quarto.

— Só mais um pouquinho, mãe, por favor. Eu até fiz picolezinhos de café.

— Se eu for aí, você vai ver, moleque.

— Eu posso muito bem ficar acordado sem televisão — resmunguei, enquanto desligava a TV.

Então, lá fui eu para a minha cama. “Mas não vou dormir”, repeti para mim mesmo, “não vou dormir”.

Já no meu beliche, tentei me manter ocupado para que o sono não me vencesse. Mexi os pés, bati as unhas na madeira da cama.

— Para de se mexer aí! — gritou minha avó da cama de baixo.

Então parei de me mexer e comecei a pensar. Isso devia me ajudar a não dormir.

Comecei a pensar na minha futura casa, no quintal bem grande para eu andar de bicicleta e várias árvores para que eu pudesse fazer uma casa na árvore igual às das histórias. E, principalmente, em um quarto só para mim!

E, de repente, eu já estava lá.

Ali estava minha cama, e bem no meio do meu quarto estava o meu tão sonhado saco de boxe, e lá no canto do quarto estavam uns pesos para eu ficar muito forte.

Então eu ouvi. A voz raivosa, os passos pesados.

E, no fim, éramos eu e o monstro feito de canos de novo.

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